domingo, 19 de junho de 2016

Gira Mundão | Capítulo 9 | _____________________________

ÚLTIMA CENA DO CAPÍTULO ANTERIOR: 
A festa acabou, todos os escravos começaram a limpar a sujeira deixada pelos brancos. Gaxambu está ajudando os outros quando se depara com Augusta. 
Augusta: Quer uma ajudinha?
É a primeira vez em dezessete anos que os dois se veem, a última vez foi em 1871. 

CAPÍTULO 9
uma web de: 
ALLISSOM LIMA 




Cena 1 - Fazenda Coro Velho - Área dos escravos - Noite
Continua.
Gaxambu: Claro, a ajuda de qualquer um é sempre bem vinda!
Augusta: Ótimo! Após isso, ela começa a catar os lixos no chão. Os dois se calam por alguns segundos, até Gaxambu parar de limpar e começar a olhar para Augusta. Ao perceber que ele estava olhando, ela para. 
Gaxambu: Por que ficou tão distante de mim por todo esse tempo?
Augusta: Eu não fiquei longe de você!
Gaxambu: Não! Eu estou solto à dezessete anos, só me encontrei uma vez com você. E olha que nós dois estamos todos os dias aqui na fazenda. Não tem como, você que está evitando o caminho comigo.
Augusta: Ou pode ser ao contrário.
Gaxambu: Eu não tenho o porque de fugir de você.
Augusta: Sabe Gaxambu... Eu quero fugir do passado, mas ao mesmo tempo, eu queria ter vivido aquele amor com você, sendo sincera...
Gaxambu: Fugir do passado é uma coisa impossível, impossível... Por que não foge comigo? Poderemos ser felizes..
Augusta (surpresa e interrompendo): Só pode estar louco não é? Tô casada!
Gaxambu: Em breve me tornarei um negro livre! Já pensou, vivermos nossa vida longe dos problemas da fazenda?
Augusta: Como já lhe disse, estou e muito bem casada!
O coronel Nicolau passa pelo local e diz:
Nicolau: O que está fazendo aqui, Augusta? Já falei que este trabalho se restringe aos negros.
Augusta: Só quis vir ajudar, qual o problema nisso?
Nicolau: Ainda tem coragem de me perguntar, qual o problema? Vamos logo, entre para dentro! Anda!

Corta
Cena 2 - Fazenda Coro Velho - Mansão - Noite 
Pegando Augusta pela orelha, Nicolau joga a moça para cima do sofá e começa a dizer:
Nicolau (apontando o dedo): Se eu vê vocês de novo juntos, posso fazer uma coisa muito pior!
Augusta (jogada no sofá): Você é um panaca mesmo, Nicolau! Estávamos apenas conversando.
Nicolau: Conversando, sei, essa conversa não cai mais Augusta!
Augusta: Você tem medo de eu me relacionar novamente com ele!
Nicolau: E desonrar o nome de nossa família? Não é medo.
Augusta: Então, se não é medo, é o que coronel?
O coronel fica calado por alguns segundos e depois fala:
Nicolau: Vá pro quarto, sua mãe quer ter uma conversinha contigo.

Corta
Cena 3 - Fazenda Coro Velho - Mansão - Quarto - Noite
Augusta entra dentro do quarto de Aparecida. 
Augusta: Posso entrar?
Aparecida: Se já está aqui dentro, por que ainda pergunta?
Augusta: Bom, Nicolau falou que você quer ter uma conversa comigo.
Aparecida: Sim, quero.
Aparecida mostra uma caixa para Augusta, que fica surpreendida ao ver o que tem dentro. 
Augusta: Meu deus minha mãe, o que fizeram?
Aparecida: Foi na maldita festa que o coronel inventou de fazer.
Augusta: Eu não acredito que roubaram todas as nossas jóias!
Aparecida: Também, Nicolau gosta de deixar todas elas expostas como se fossem recordações.
Augusta: Essas jóias valiam ouros!
Aparecida: Valia não, era ouro.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Gira Mundão | Capítulo 8 | Não consigo esquecer | NOVA FASE

ÚLTIMA CENA DO CAPÍTULO ANTERIOR:
Augusta foi ver como os escravos estavam trabalhando na fazenda. 
Augusta: Vamos, mais rápido! Não podemos deixar essa fazenda parar. 
Ela segue adiante. Ao virar para o lado ela fica cara a cara com Gaxambu. 

Uma web de:
ALLISSOM LIMA 

Capítulo 8:
Dezessete anos se passaram, agora estamos em 1888, o ano em que foi assinada a Lei Áurea. Estamos uma semana antes da assinação da lei. 


Cena 1 - Fazenda Coro Velho - Festa - Dia 
A fazenda amanheceu em festa comemorando os 63 anos do Coronel Nicolau. Ele está sentado em uma cadeira, na porta da mansão, assistindo de camarote a festa. Aparecida está ao lado dele. 
Nicolau: É minha irmã, nós estamos cada dia mais velho. 
Aparecida: É o que o diga, daqui a pouco chega a idade de nosso pai 
Nicolau: Jorge viveu muito, acho que eu não chego até lá. 
Aparecida: Se você não chega, muito menos eu. Eu só aguardo o pai me chamar, porque ele já levou tudo de mim. 
Nicolau: Não começa não, Aparecida! estamos em uma festa, se começar o choro, vá pra dentro!

Corta
Cena 2 - Mansão - Fazenda coro velho - Dia
 Aparecida corre para dentro da mansão chorando. Ao entrar lá, Tião e Clementina veem a patroa e perguntam a ela o que aconteceu. 
Tião:  O que aconteceu patroa?
Aparecida: Nada, é só mais uma das minhas babaquices. 
Clementina: Oche fale logo patroa, vai que posso lhe ajudar. 
Augusta: Deixem ela, não ouviram? ou estão com o ouvido aonde? falou a filha de Aparecida após descer as escadas. 
Augusta: Agora tratem de limpar aquele quarto nojento, está horrível a situação para lá. 
Clementina: É pra já patroa
Augusta: Bom que seja. 
Tião e Clementina saem. Augusta pergunta a mãe o que aconteceu.
Augusta: O que aconteceu agora, Aparecida?
Aparecida: Meu passado é um castigo que eu estou pagando até hoje. 
Augusta: Não acredito que ainda chora pela morte de Jamili, minha mãe, acorda, você parece uma besta no meio da sala. Ela morreu tem mais de 12 anos! Acorda pro hoje, pro amanhã e o que vem depois, esquece o ontem minha mãe! Você é tão fraca, que mandam é pedras no seu caminho, justamente porque você tropeça e começa a chorar.
Aparecida: Pedras no caminho? eu guardo todas, um dia eu construo um castelo com todas elas. 

Corta
Cena 3 - Fazenda Coro Velho - Dia 
Nicolau partiu para a festa, ele saiu da porta da mansão e foi curtir a festa com os outros. Dessa vez, os escravos também puderam se divertir, mas tudo dentro de um limite. No fim da festa, serão eles quem irão limpar tudo. 
Nicolau: Ah, Lopes, quanto tempo meu amigo. 
Lopes: E aí Nicolau? fiquei sabendo da festa por conta de outras bocas, como não via você desde 1854, vim dar uma visitinha aqui.
Nicolau: Hahahaha! Veio pra ficar né não?
Lopes: Na verdade não, ocorreram vários acontecimentos ruins na minha fazenda, vou ter que ir pra lá rápido quando acabar a festa.
Nicolau: O que aconteceu de tão ruim?
Lopes: As pragas Nicolau, as pragas. Estão tomando conta do meu milharal.
Nicolau: Bom, eu tô aqui pra ajudar, qualquer coisa posso fornecer algum tipo de ajuda.

Corta
Cena 4 - Fazenda Coro Velho - Dia - Área dos escravos 
Os escravos estão festejando na fazenda, comendo uma bela feijoada e dançando capoeira. Enquanto um canta, os outros fazem os gestos. Gaxambu e Taú estão vendo o espetáculo.
Taú: Essa é uma das poucas coisas que nos restaram quando viemos para cá Gaxa.
Gaxambu: Eu sei meu pai, eu sei. Não temos mais o candomblé, agora somos todos cristãos.
Taú: De um jeito forçado, mas cristãos. Mas não adianta chorar pelo o que já foi. Nós não mudamos o mundo, somos apenas negros que tentam a liberdade, porém é vão.
Gaxambu: Em falar em liberdade, Camah foi liberto.
Taú: Essa notícia a fazenda inteira já está sabendo. Chega em um chega na fazenda inteira e se bobear em toda a cidade.
Gaxambu: Eita povo fofoqueiro!

Corta
Cena 5 - Fazenda Coro Velho - Dia
Carolina e José chegaram como intrusos para espiar a festa da fazenda Coro Velho. Ela está com um grande chapéu preto na cabeça e ele também. 
Carolina: Veja meu pai.. até os escravos estão trabalhando.
José: É direito deles também não acha? Mas também tem que ser tudo dentro dos limites Carol, tudo dentro dos limites.
Carolina: Venha para cá meu pai falou ela mandando José entrar para dentro da mansão. Ao entrar dentro da mansão, Maria Lourença diz
Maria Lourença: Bem vindos a fazenda Coro Velho!
Carolina(arrumando o chapéu): Obrigada, mas nós já conhecemos aqui.
Maria Lourença: Desculpa mas, como? nunca vi vocês andando por essas terras desde quando comecei a trabalhar aqui, e olha que faz tempo viu?
Carolina(nervosa): É.... lá pelos
José(interrompendo): Pelos jornais, horas, por onde mais? Aqui é um local muito falado.
Maria Lourença: Ah sim, é verdade não vou discordar aqui é um lugar muito comentado nos jornais mesmo. Já pensaram em morar em terras vizinhas?
Carolina: Nunca pensamos não..
Maria Lourença(se aproximando dos dois): Mas deviam, é um ótimo lugar. Gostei de vocês, meu nome é Maria Lourença e os vossos nomes?
Carolina(arrumando o chapéu e mentindo): Juliana
José: Otávio.
Maria Lourença: Prazer, agora vou-me indo, com licença.

Corta
Cena 6 - Fazenda Coro Velho - Noite
A festa acabou, todos os escravos começaram a limpar a sujeira deixada pelos brancos. Gaxambu está ajudando os outros, quando se depara com Augusta. 

Augusta: Quer uma ajudinha?

É a primeira vez em dezessete anos que os dois se veem, a última vez foi em 1871. 



NÃO PERCA O PRÓXIMO CAPÍTULO DE GIRA MUNDÃO!

domingo, 29 de maio de 2016

Gira Mundão | Capítulo 7 | Você de novo

ÚLTIMA CENA DO CAPÍTULO ANTERIOR:
Augusta: Por que eu não consigo esquecer esse homem meu deus! Até nos meus sonhos ele aparece. Me dê uma resposta. Me ajude!

CAPÍTULO 7:
Continua:


Cena 1 - Fazenda Coro Velho - Área dos escravos - Dia 
O dia amanheceu com chibatadas na fazenda. Jakak, está apanhando por tentar fugir. Taú e Habib estão conversando, olhando o colega apanhar. 
Habib: Ô! Quando é que essas chibatadas vão acabar? é muito sofrimento!
Taú: Só vai acabar quando a escravidão acabar, então, provavelmente nunca. Eles tem que entender que, enquanto tiver isso, ainda teremos os famosos ''quilombos''. 
Habib: Eles não entendem mesmo. Mas eu ainda sonho em um Brasil diferente..
Taú: Todos nós sonhamos meu querido, todos nós.

Cena 2 - Igreja - Dia 
Augusta foi a igreja rezar uma missa. Lá, se encontrou com o padre Sérgio. 
Augusta: Benção padre!
Sérgio: Ô minha filha, quanto tempo! o padre a abraça e continua: 
Você tem a minha total benção. 
Augusta: Graças a deus, como vai o senhor?
Sérgio: Muito bem, e a senhorita?
Augusta: Ótima, com uns negócios aqui e ali mas, dá pra segurar.
Sérgio: Tudo certo, então. É.. sente-se, sente-se 
Augusta: Com licença..
Sérgio: Agora me diga, o que lhe trouxe aqui? 
Augusta: Vim rezar uma missa senhor padre, na verdade já rezei. 
Sérgio: Não.. você nunca vem rezar missas, algum motivo especial tem, te conheço desde pequena, Augusta! 
Augusta: Ah... é que, uma paixão antiga está se reacendendo, sabe padre?
Sérgio: Sim, continue. 
Augusta: E eu já estou casada e muito bem casada com Roberto. Mas sabe, as vezes acho que esse amor é mais verdadeiro do que os dezoito anos de casamento que tive com o meu esposo.. Eu não quero me entregar à ele padre. Me ajude! 
Sérgio: Olha minha filha, o máximo que posso lhe fazer é rezar pro mal não acontecer. 
Augusta: Pois só fazendo isso padre, vai ajudar a sua coleguinha aqui e muito! 

Cena 3 - Fazenda Coro Velho - Porta da mansão - Dia 
Maria Lourença está sentada na porta da mansão da fazenda Coro Velho. Cristóvão aparece atrás de Aparecida. 
Maria Lourença: O que faz andando por aí feito barata tonta menino? 
Cristóvão: Nada não.. 
Maria Lourença: Nada não, sei.. não sou burra não moço. Fala logo Cristóvão, pra ver se posso ajudar. 
Cristóvão: Cadê a patroa?
Maria Lourença: O bicho de oito cabeças? porque sete que não é. Deve tá enfiada lá pra dentro. 
Cristóvão: Olha o jeito que fala com patroa. 
Maria Lourença: A boca é minha, quero ver ela ir vir tampar. E outra, cadê Manuel?
Cristóvão: Desde ontem de madrugada esse se enfiou na mata e desapareceu 
Maria Lourença: Eu em oche! Deve está atrás é de Gaxambu, cá entre nós, acho que ele tentou dar é uma fugidinha ontem viu?

Cena 4 - Mata dos Atracauê - Tarde
Gaxambu trabalhou muito pesado na noite de ontem, sem direito a descanso. O escravo foi chamado por Manuel, Taú queria ver o filho de criação. Gaxambu estava no meio da mata. 
Manuel: Gaxambu, pare de trabalhar! Siga-me
Gaxambu: O que houve?
Manuel: Não quero ouvir palavras, apenas siga-me.
Manuel levou Gaxambu para trás da mansão da fazenda para uma conversa. 
Manuel: Seu pai quer falar com você, vocês dois tem dez minutos de conversa, depois é tchau!
Manuel sai. Taú e Gaxambu ficam se entreolhando por alguns segundos, até o mais velho abrir os braços demonstrando que quer dar um abraço. 
Taú: Venha cá, meu filho!
Gaxambu: Que saudade eu senti de você meu pai
Taú: Não foi só eu não, a fazenda INTEIRA!
Gaxambu: Que bom, que bom.. O que aconteceu com suas pernas, porque está com essa cadeira de rodas??
Taú: É meu filho.. seu pai foi trabalhar pesado à mando do coronel Nicolau, acabou acontecendo um acidente, seu pai ficou alejado. *risos*
Gaxambu: E o senhor ainda ri disso?
Taú: Eu rio mesmo. A vida sem o humor é muito pesada, ainda mais por ser um negro e sofrer por causa dos outros.
Gaxambu: Mas nós temos que olhar pro lado bom da coisa meu pai
Taú: Lado bom da coisa? Não tem nenhum lado bom por aqui. O único lado bom, claro, é a sua volta. Escute bem o que estou te falando, não se meta mais com aquela gente. Seu castigo foi cumprido. Por favor, não se meta com o povo branco.
Gaxambu: Eu prometo meu pai!

Cena 5 - Fazenda Coro Velho - Escritório - Tarde 
Nicolau está sentado em sua cadeira. Jamili chega no escritório do coronel Nicolau: Pode entrar 
Jamili: Com licença coronel.. Raimundo está ai fora, quer falar urgentemente com o senhor, posso deixar entrar? 
Nicolau: Pode, já devia ter deixado.
Raimundo entra 
Raimundo: Coronel Nicolau, quanto tempo 
Nicolau: Fala logo, desembucha!
Raimundo: Que grosseria homem! Não precisa disso não
Nicolau: O que o povo todo daqui merece de mim? A minha grosseria e a falta de educação, o povo daqui é muito podre! 
Raimundo: Então porque continua como coronel?
Nicolau: Um agrado a meu pai, e por vontade também. 
Nicolau: Agora desembucha logo, vamos que estou com pressa. 

Cena 6 - Fazenda Coro Velho - Área dos escravos - Noite 
Augusta foi ver como os escravos estavam trabalhando na fazenda. 
Augusta: Vamos, mais rápido! Não podemos deixar essa fazenda parar. 
Ela segue adiante. Ao virar para o lado ela fica cara a cara com Gaxambu. 

Congela no rosto de Augusta 


NÃO PERCA O PRÓXIMO CAPÍTULO DE GIRA MUNDÃO INICIANDO A 3° FASE!

sábado, 30 de abril de 2016

Gira Mundão | Capítulo 6 | Sonha comigo? | 1871

ÚLTIMA CENA DO CAPÍTULO ANTERIOR:
Carolina: Pai, já estou mais que decidida.
Carolina, coloca a placa na fazenda. 
José: Agora que tu colocastes esta placa, para onde irão nossas escravas? 
Carolina: A fazenda Coro Velho cuidará delas. Cuidaram, melhor que nós. 
José: É o que veremos Carol, é o que veremos.

CAPÍTULO 6:
Vinte e um anos se passaram, a maioria das coisas continuam as mesmas na fazenda Coro Velho. Apenas, alguns negócios mudaram de 1850 à 1871.



Cena 1 - Fazenda Coro Velho - Mansão -  Escritório - 1871
Nicolau e Aparecida estão tratando assuntos da Fazenda Coro Velho. Nicolau está fumando cachimbo e Aparecida com um leque.
Nicolau: Tome isso, essa parte do dinheiro se destina à Pascoal.
Aparecida: E a outra parte?
Nicolau: Essa é minha
Aparecida: Seu pão duro, nunca dividiu nada comigo
Nicolau: E nem dividirei. Aproveitando que você está aqui, quero falar sobre sua filha, Augusta.
Aparecida: O que tem Augusta?
Nicolau: Aquela menina vive me desobedecendo
Aparecida: Você não é nada dela
Nicolau se enfurece, levanta e joga o cachimbo contra a parede
Aparecida: Ficou louco?
Nicolau: Como assim eu não sou nada dela? sussurrou ele. 
Aparecida: Ué homem. Ela só lhe conheceu depois que veio ficar como coronel aqui.
Nicolau: Sou tio dela, como um pai que nunca teve.
Após ouvir isso, Aparecida bate a mão na mesa de Nicolau, furiosa diz
Aparecida: Mentira! O pai dela teve de se ir por causa da família. Ele amava ela como amava a mim.
Nicolau: Se fosse por isso não teria sumido sem deixar notícias
Aparecida: Bem que é real mesmo. Cadê você Juvenal? Não tenho notícias a mais de quarenta anos. Não sei nem se está vivo.
Nicolau: Provavelmente está ou não está, mas ligando pra você, não, posso afirmar. Minha irmã, você tem que abandonar esse passado. Quando jovem, você era bem sorridente. Agora é uma mulher chata, que vive lembrando do passado. Descola, vai!
Aparecida: Eu sempre estou arrependida com o tempo Nicolau. O tempo me trouxe muitas coisas ruins com o passar dos anos.
Nicolau: Cite pelo menos uma coisa?
Aparecida: O tempo levou meu pai, Nicolau. Levou meu pai. Que sempre esteve comigo. Era mais que merecido não um minuto de silêncio, mas sim, uma eternidade. Eu só tenho a você, Augusta e Jamili na minha vida agora. Só.

Cena 2 - Jardim das Boas Flores - Dia
Augusta e seu marido, Roberto estão dançando uma bela música em uma festa que Amadeu deu no Jardim das Boas Flores. 
Augusta: Vamos homem, mexe esse esqueleto!
Roberto: Vou não, vou não, é o cansaço.
Augusta: Que cansaço homem, vem, vem dançar, vem viver! Vem aproveitar a minha volta pro Brasil!
Augusta para de dançar, se ajoelha no chão e começa a dizer
Augusta: Meu Brasil! Agarre essa menina que acabou de chegar para ficar! Depois de tantos anos morando e estudando na Itália meu deus.
Roberto: Chega, se levanta que vão achar que você é louca.
João, um dos convidados da festa e colega de Augusta, chega para perto da mesma e diz
Augusta: Vem João! Venha dançar comigo
João: Hoje é um grande dia para Gaxambu
Augusta: O quê?
Augusta logo levanta, surpresa.
João: A senhora tá sabendo não? Vão soltar ele da jaula hoje ou amanhã, só sei que disso não passa.
Augusta: Roberto, vamos para casa agora.
Roberto: Mas não era você que queria dançar, curtir?
Augusta: Não não, vai, vamos pra casa.
Roberto: Então tudo bem.
Na saída, Amadeu para os dois. 
Amadeu: Pra onde estão indo filhos de Deus?
Augusta: Ô Amadeu, estamos indo pra casa homem.
Amadeu: Por que, a festa está ruim é?
Roberto: Que nada, a festa está uma beleza. É que as vezes dá um chilique e lique na Augusta que ela decide essas coisas em cima da hora, não entendo ela de vez em quando mas já me acostumei.
Amadeu: Ah, sendo assim, Deus ilumine o caminho de vocês dois!
Roberto: Amém Amadeu, amém!

Cena 3 - Fazenda Coro Velho - Mansão - Cozinha - Dia
Jamili está na cozinha acompanhando o jantar de dona Clementina, a empregada da fazenda.
Clementina: Daqui a pouco dona Jamili, o café estará na mesa.
Jamili: Que delícia Clementina! Só você mesmo pra fazer essa comida maravilhosa!
Clementina: Que isso patroa!
Jamili: Que isso nada mulher, vamos, me conte a receita.
Clementina: Muito amor e atenção com o que se faz.
Jamili: Ui, gostei viu! Sempre você com essas receitas. Você sabe por onde anda Tião?
Clementina: Esse aí sumiu ontem de madrugada, ninguém sabe por onde anda, mas dá uma volta na fazenda, acho que ele está por lá.
Jamili: Então tá bom, se alguém perguntar por mim, responda que estou na fazenda.

Cena 4 - Mansão - Fazenda Coro Velho - Início da tarde
Augusta e Roberto chegaram na mansão. Eles se deparam com Jamili na entrada.
Jamili: Augusta, como vai?
Augusta: Ótima! e você? como vai o menininho que está nessa sua barriga?
Lágrimas começam a sair dos olhos de Jamili. 
Roberto: O que aconteceu Jâ?
Jamili: Nada
Augusta: Desembucha mulher!
Jamili: Eu perdi meu neném Augusta.
Augusta: Meus pêsames
Roberto: É.. Augusta..
Augusta: O que foi Roberto?
Jamili: Bem é.. isso é outro assunto, conversaremos sobre depois, mas, como foi a festa?
Augusta: Foi ótim...
Augusta é interrompida por Roberto
Roberto: Augusta não deixou a gente continuar na festa porque deu umas doideiras nela que quis ir embora.
Jamili: Tá bom então.. vou me indo, tenho que procurar Tião
Augusta: Tião tava banhando as vacas
Jamili: Sério mesmo é? esse homem cada dia me surpreende.
Roberto: Qual o problema em banhar vacas?
Jamili: Tião, vocês sabem, é preguiçoso. Mas ultimamente esteve trabalhando duro viu..
Augusta: Realmente, deixe-me entrar...
Jamili: Deixe-me sair! haha!

Cena 5 - Mansão - Fazenda coro Velho - Início da tarde
Aparecida está sentada no sofá da mansão bebendo chá. Augusta e Roberto chegam.
Augusta: Grande coisa Roberto, isso que você viu lá fora.
Roberto: Mas eu tenho certeza que...
Augusta: Oi minha mãe, tudo bem?
Aparecida: Oi minha filha.. Como foi a festa?
Augusta: A festa foi ótima o problema é Roberto.
Aparecida: O que foi meu genro?
Roberto: Augusta quis vir do nada de uma hora para outra...
Aparecida: É normal e você sabe disso..
Augusta: Então minha mãe, quero conversar a sós com você.

Cena 6 - Fazenda Coro Velho - Varanda da Mansão - Início da tarde
Taú está sentado em uma cadeira. Ele continua sendo o negro mais velho da fazenda, com 71 anos. Podemos dizer que, Taú não é mais um escravo da fazenda já que, Aparecida e Nicolau preservaram ele por esse e outro motivo. Esse é o benefício que nenhuma outra fazenda da grande cidade Guazibarros tem. 
Maria Lourença: Taú, tenho boas notícias para você.
Maria Lourença, é uma das ajudantes de Aparecida. Ela é muito conhecida pelos escravos por mandar notícias. 
Taú: Diga-me, quais as notícias?
Maria Lourença: Na verdade, é apenas uma.. Gaxambu será solto hoje mesmo no início da noite.
Taú: E isso é uma boa notícia?
Maria Lourença: Como assim? É seu filho!
Taú: Ele estava é de castigo por se meter com essa gente. Ou eu me enganei o tempo todo? acho que quem está de castigo sou eu, preso nessa cadeira pelo resto da minha vida.
Taú perdeu o movimento das pernas em um acidente grave enquanto trabalhava na fazenda, todos ficaram preocupados. Esse é o outro motivo da preservação. 
Maria: Eu entendo mas.. não pode deixar levar a auto-estima. Bem, meu papel foi feito, vim dar o recado como dona Aparecida pediu. Qualquer coisa, só chamar.

Cena 7 - Mansão - Quarto - Fazenda Coro Velho - Início da tarde
Augusta: Eu prometi a senhora que nunca mais tocaria nesse assunto mas, tudo está voltando a tona, não é a primeira vez..
Aparecida: Me explique melhor.. não consigo entender essas suas palavras.
Augusta: É GAXAMBU MINHA MÃE, É GAXAMBU!
Aparecida: Esse nome..
Augusta: Eu sei minha mãe, eu sei mas.. 
Aparecida: Você ficou sabendo? 
Augusta: Fiquei sim, é por isso que estou aqui. Vai soltar ele mesmo?
Aparecida: O que rola pela boca do povo nessa fazenda na maioria das vezes é a verdade pura, desta vez não é diferente então sim. Olha minha filha, eu sou diferente de seu avô Jorge, eu cumpro com o que digo. Foram vinte anos prendendo ele lá, sem ver a luz do sol. Agora é a hora de soltá-lo. 
Augusta: Mas se tudo vier a tona de novo mãe.
Aparecida: Vira essa boca pra lá, não vai, não vai!
A porta do quarto se abre, é Nicolau entrando.
Nicolau: Desculpe interromper a conversa das duas mas, tive que entrar para pegar isso daqui
Aparecida: Olha que eu escondi viu?
Nicolau: Eu sei onde estão minhas coisas. Sei de tudo daqui, tudo. 
Aparecida: Tá bom sábio, agora sai. 

Cena 8 - Mansão - Escritório - Fim da tarde
Nicolau: É Gaxambu... Liberdade vai cantar para você hoje.. Se você está pensando em reencontrar Augusta, pode tirar o cavalinho da chuva.. pode tirar...

Cena 9 - Vila Matias - Fim da tarde
Joaquim está entregando o jornal para todos os moradores da Vila Matias. 
Joaquim: IMPORTANTE, IMPORTANTE! Olhem os jornais, IMPORTANTE!
Uma moça o viu e perguntou
Moça: O que tem de tão importante, Joaquim?
Joaquim: A princesa Isabel assinou a lei do Ventre Livre. Agora as crianças que nascerão a partir de hoje, não serão mais escravas, serão livres.
Moça: Vixe, que baboseira é essa me explique melhor homem.
Joaquim: As criança que nascerão a partir de hoje não trabalharão mais como escravos. Agora as crianças tem duas possibilidades: elas podem ficar ao cuidado dos senhores ou entregues ao governo
Moça: Daqui a pouco vai ter lei até pros adultos, e agora, com que a gente fica?

Cena 10 - Fazenda Coro Velho - Área dos Escravos - Início da noite 
Gaxambu foi solto por Aparecida. Neste momento, ele já começou a trabalhar na fazenda e ao mesmo tempo está conhecendo os escravos. 
Gaxambu: A quanto tempo que eu não vejo a lua meu deus!
Cândido: A lua sempre esteve aqui, Gaxa, esperando por você.
Gaxambu: E eu por ela. Ficar preso em uma jaula esses anos todos me deu muita coragem para enfrentar a vida agora Cândido.
Cândido: Só tome cuidado para não cruzar os antigos caminhos de novo.. cuidado.

Cena 11 - Mansão - Quarto de Augusta - Noite 
Augusta está dormindo ao lado de Roberto em sua cama. A mulher começa a debater, andar para lá e para cá e do nada acorda. Ela fala baixinho:
Augusta: Por que eu não consigo esquecer esse homem meu deus! Até nos meus sonhos ele aparece. Me dê uma resposta. Me ajude!



quinta-feira, 21 de abril de 2016

Gira Mundão | Capítulo 5 | Fazenda fechada

ÚLTIMA CENA DO CAPÍTULO ANTERIOR: 
Aparecida: Agora só tem eu e você aqui Gaxambu, só eu e você.
Gaxambu: O que você vai fazer comigo?
Aparecida: Eu serei muito mais boazinha do que meu pai foi com você. Eu vou puni-lo.
Gaxambu: Meu deus!
Aparecida: Calma! Não terminei de falar ainda. Gaxambu, você ficará preso por dez anos, em uma jaula humana.
Gaxambu: Não faça isso, por favor! fala Gaxambu, sob os pés de Aparecida
Ela, irritada empurra ele. 
Gaxambu: Não faça isso comigo, por favor!
Aparecida: Esse é o seu castigo por ter mexido com um membro da família. Seu negro medíocre.
Depois de falar isso, ela cospe no rosto de Gaxambu. 

Capítulo 5
Continua: 




Cena 1 - Fazenda Coro Velho - Dia 
Mais um dia amanhece na fazenda Coro Velho. Taú e os outros escravos, estão observando mais um deles apanhando no tronco.
Taú: Foi assim, que minha Amara morreu.
Habib: Quem é Amara?
Taú: Era uma grande amiga minha, não só amiga como namorada da adolescência. Sinto muita saudade dela
Habib: Meus pêsames
Taú: Ela morreu a exatos dez anos. Junto com ela se foram Zaila e meu parceiro, Xoloni.
Habib: E quem são estes?
Taú: Zaila era uma grande mulher. Xoloni, era um grande amigo. Os dois eram casados. Ele morreu sendo caçado pelos homens. Ela morreu de tanta preocupação, pois ficou dois dias esperando ele voltar, e ele não voltou.
Habib: Estás aqui a quanto tempo, Taú?
Taú: Entrei aqui em mil oito centos e trinta. E só saio daqui quando o pai me permitir.
Habib: Que isso homem? Já pensando na morte é?
Taú: Eu não. Mas sabe? ele já pode me levar. Meu papel aqui já foi cumprido com êxito. E você meu jovem, a quanto tempo está aqui?
Habib: Ah Táu, estou aqui desde ontem mesmo.
Taú: Tem muito a aprender, muito a aprender.

Cena 2 - Fazenda Coro Velho - Mansão - Dia
Jamili está apresentando a Nicolau a fazenda Coro Velho. 
Jamili: E não a de pensar que esta fazenda é nova não, tá?
Nicolau: Eu sei tudo dona Jamili. Eu morei aqui meus primeiros anos de vida. Conheço esse lugar a mais tempo que Aparecida.
Jamili: Mas escuta coronel, vocês não me contaram sobre esse passado sombrio de vocês não?
Nicolau: Melhor nem saber
Jamili: Se eu não sei por você, sei por Aparecida.
Nicolau: Tá bom. Eu me separei daqui, quando meu pai se separou de uma parte de nossa família.
Jamili: Como assim?
Nicolau: Meu pai brigou com meu tio, José. E aí os dois se tornaram rivais. Depois da briga, nenhum dos dois se olharam mais cara a cara.
Jamili: Quer dizer que José é irmão de Jorge?
Nicolau: Os dois são filhos de Jopretino, que vocês chamam de Salomão. Esse cara, tinha as duas fazendas que hoje brigam tanto.
Jamili: Não sabia.
Nicolau: Aparecida todos os dias tenta esquecer isso, desde pequenininha. Mas ela não consegue. Ela queria muito rever a irmã, Carolina. E eu tenho certeza que ela vai aproveitar essa oportunidade dada.
Jamili: Sei não viu. Sei não.

Cena 3 - Fazenda Coro Velho - Mansão - Dia
Augusta acorda da cama. Ao levantar ela toma um susto com Manuel a observando, sentado em uma cadeira. 
Augusta: O que está fazendo aqui Manuel?
Manuel: Cumprindo ordens da patroa.
Augusta: Minha mãe chegou a esse ponto. Vou tomar banho agora, quer vir me espionar?
Manuel: Só se sua mãe mandar
Augusta: Desencana, Manuel!

Cena 4 - Mata dos Atracauê - Dia
Aparecida está mandando os homens retirar os pertences de Augusta, da casa dela.
Aparecida: Augusta agora morará na Itália.
Cristóvão: Como assim, patroa?
Aparecida: Vou colocar ela na Europa, para ficar bem longe dessa raça negra que nós temos por aqui. Ela um dia vai me agradecer
Cristóvão: Vai ser por muito tempo?
Aparecida: O tempo que for preciso. Ela precisa pensar no que fez e ocupar a mente. Agora vá tratar de retirar os pertences da moça.
Cristóvão: É para já senhora
Aparecida: E mande alguém me levar até a fazenda. Uma donzela como eu não posso andar sozinha por aí, correto?
Cristóvão: Correto, madame!
Depois de Cristóvão se ir, Aparecida fala: 
Aparecida: Vamos logo Cristóvão.. Preciso de alguém pra dar uma verificada no Gaxambu.

Cena 5 - Fazenda Coro Velho - Dia
Taú: Você sabia que eu sou o mais velho escravo dessa fazenda, pelo menos por agora?
Habib: E é? Quantos anos senhor tem?
Taú: Eu estou com cinquenta anos. Quando eu cheguei aqui, tinha escravo até de noventa. Pena que todos eles já se foram, e eu sou o que restou. Não vai demorar muito, sou o próximo.
Habib: E como o senhor quer ir?
Taú: Pelo tronco que não! Muito dolorido. Prefiro ir da noite pro dia, que nem minha tia Damuf se foi.
Habib: Interessante. Essa fazenda tem muita história
Taú: E vai continuar fazendo muita história ainda, tenho certeza, de que mais anos ela aguentará.

Cena 6 - Fazenda de Jopretino - Tarde
Carolina está fechando a Fazenda de Jopretino. José, está ao lado dela com uma bengala, chorando. 
José: Pense bem, ainda dá tempo minha filha. Não coloque essa placa
Carolina: Meu pai, já conversamos sobre
José: Colocando essa placa, você está desonrando à Jopretino. Você quer se entregar a outra parte da família, depois de tudo que fizeram?
Carolina: Não! Não vai acontecer isso meu pai!
José: Fechando essa fazenda, vai! E eu não duvido muito de que acontece daqui a alguns dias.
Carolina: Pai, já estou mais que decidida.
Carolina, coloca a placa na fazenda. 
José: Agora que tu colocastes esta placa, para onde irão nossas escravas?
Carolina: A fazenda Coro Velho cuidará delas. Cuidaram, melhor que nós.
José: É o que veremos Carol, é o que veremos.




Gira Mundão | Capítulo 4 | Novo Coronel

ÚLTIMA CENA DO CAPÍTULO ANTERIOR: 
Nicolau: Vamos logo Aparecida, tô com pressa
Aparecida: Calma, tô esperando esse homem aqui desembuchar
Cristóvão: Sua filha, está realmente namorando o Gaxambu. Precisamos ir lá rápido.

Capítulo 4
Continua:



Cena 1 - Mata dos Atracauê - Casa da Augusta - Tarde
Augusta e Gaxambu foram amarrados com uma corda no chão. Eles estão chorando, pedindo por piedade.
Gaxambu: Nós solte por favor!
Manuel: Até parece que vou seguir ordens de um negro, negro não, um bicho!
Augusta: Ele é um humano como todos nós somos!
Manuel: Você só pode estar delirando né Augusta? Só soltarei vocês quando Aparecida vier aqui.
Manuel escuta o barulho dos pés de cavalos. Ele logo diz
Manuel: Olha ela, chegou.
Os outros dois comparsas de Manuel recebem Aparecida e trazem ela até a moradia da filha dela. Aparecida, surpresa quando vê a cena, diz:
Aparecida: O que deu em sua cabeça, Augusta? Já é tanta coisa ruim acontecendo, e você me vem com essa! Só pode estar caçoando da minha cara, óbvio!
Augusta: Eu não estou brincando! Nós nos amamos!
Gaxambu: É nós amamos!
Aparecida: Cala boca Gaxambu, você eu me trato depois.
Aparecida se agacha e acaricia o queixo de Augusta.
Aparecida: Você tem ideia do que está fazendo?
Augusta: Tenho, mais consciência do que você aliás
Aparecida dá um tapa no rosto de Augusta
Aparecida: Olha o jeito que fala comigo mocinha.
Aparecida se levanta
Aparecida: Levem Augusta para a fazenda. Gaxambu fica aqui, teremos uma conversa.

Cena 2 - Mata dos Atracauê - Tarde
Augusta está sendo levada a força por Manuel e Cristóvão para a fazenda Coro Velho. 
Augusta: Me solta, me solta!
Cristóvão: Não adianta fazer essa rebeldia toda, minha senhora.
Augusta: Eu só quero viver, só quero viver
Manuel: E nós queremos nosso salário no final do mês. Anda logo com isso Cristóvão
Cristóvão joga ela para dentro do automóvel e o dois seguem em direção a fazenda Coro Velho. 

Cena 3 - Fazenda Coro Velho - Final de tarde 
O automóvel chega na fazenda. Augusta chorando, é posta para fora. Taú, sentado em uma cadeira, assiste tudo de camarote. Ele diz
Taú: Vishe! Augusta chorando, alguma coisa aconteceu. 
Cristóvão segura a moça e a leva para dentro da mansão. Manuel vê Taú e diz
Manuel: A coisa ficou feia viu, se eu fosse você, estaria trabalhando em vez de ficar observando. 
Taú: Tá bom. 
Taú se levanta e vai ajudar os outros escravos.
/Dentro da mansão/
Cristóvão joga Augusta chorando no sofá.
Cristóvão: Fique aqui até a segunda ordem. Manuel, fique de olho, vou retornar a mata dos atracauê caso Aparecida necessite de ajuda minha.
Manuel: Tudo bem.

Cena 4 - Mata dos Atracauê - Casa da Augusta - Final de Tarde
Aparecida: Agora só tem eu e você aqui Gaxambu, só eu e você.
Gaxambu: O que você vai fazer comigo?
Aparecida: Eu serei muito mais boazinha do que meu pai foi com você. Eu vou puni-lo.
Gaxambu: Meu deus!
Aparecida: Calma! Não terminei de falar ainda. Gaxambu, você ficará preso por dez anos, em uma jaula humana.
Gaxambu: Não faça isso, por favor! fala Gaxambu, sob os pés de Aparecida
Ela, irritada empurra ele. 
Gaxambu: Não faça isso comigo, por favor!
Aparecida: Esse é o seu castigo por ter mexido com um membro da família. Seu negro medíocre.
Depois de falar isso, ela cospe no rosto de Gaxambu. 



sexta-feira, 8 de abril de 2016

Gira Mundão | Capítulo 3 | Amor proibido

ÚLTIMA CENA DO CAPÍTULO ANTERIOR: 
Carolina: Mas meu pai, você está como prova viva do que está acontecendo. Temos poucas escravas trabalhando aqui, já ninguém quer mais negociar com a gente.
José: Não querem mais negociar com a gente porque nós fizemos algo de errado. Aí devemos corrigir. Raciocina comigo, se fecharmos do que sobreviveremos?

CAPÍTULO 3
Continua: 


Cena 1 - Bar do Carlinhos - Tarde
Pedro Maciel foi ao bar do Carlinhos para conversar com ninguém nada menos que, Carlos. Ele abriu as portas na maior agressividade, assustando os que estavam lá.
Pedro Maciel: Cadê Carlos?!
Carlos: O próprio aqui
Pedro Maciel: O que foi que você fez?
Carlos: Oshe, nada! Tô mais parado aqui do que santo, oshe homem!
Pedro Maciel: Não minta pra mim. Se for homem de verdade, diga a mim o que você fez com Deodata?
Carlos: Deo quem? Você tomou seu remédio hoje?
Pedro Maciel: Eu sei que você fofocou sobre ela... Mas, me diga por favor a quem você fofocou.
Um dos homens que estavam no bar, irritando com a situação, levantou-se e disse:
Venâncio: Ei macho, deixa o cara. Se quiser brigar brigue com alguém do seu tamanho.
Pedro Maciel virou para trás, sorrindo sarcasticamente, e disse
Pedro Maciel: Literalmente
Ele ironizou Carlos que, esqueceu de crescer aos 12 anos. Um outro homem, falou:
Diamantino: Ei, sem brigas. Isso aqui é um bar e não o que vocês acham que é.
Os outros homens levantaram e pegaram Pedro pelos braços e jogaram ele para fora do bar. 
Pedro Maciel: Eu não vou desistir tão fácil, Carlos. Eu sei que você é o maior vilão de toda essa história!
As portas do bar fecham. Carlos assustado com a situação, diz:
Carlos: Que loucura! Será que ele bebeu antes de vir para cá? 


Cena 2 - Fazenda Coro Velho - Noite 
Jorge está seriamente doente. Corre risco de morrer a qualquer momento. Aparecida está preocupada, andando para lá e para cá. Jorge está de cama, ele se recusa a ir ao médico. 
Aparecida: Meu deus, nem quando o avô está doente ela aparece
Jorge: Eu estou me indo, Aparecida.
Aparecida: Não fala isso nem brincando meu pai, vai viver muito ainda.
Jorge: Eu não quero. Já vivi 96 anos hâm? Já tá bom demais. Eu construí minha família, honrei o nome de meu pai Salomão, e agora minha missão na terra foi cumprida minha filha. É você quem vai continuar tudo junto com Augusta.
Aparecida: Não me deixe sozinha nesse mundo meu pai
Jorge: Sozinha não, tá com Augusta
Aparecida: Minha filha ultimamente esteve cada vez mais distante de mim. Por favor painho..
Jorge segura a mão de Aparecida, que está sentada em uma cadeira do lado da cama. Logo em seguida ele diz
Jorge: Eu sempre estarei com você em tudo, lá na sua cabeça. Quando precisar, só me chamar.
Aparecida: Mas e a fazenda meu pai?
Depois disso, Jorge morre. Deixando sua filha apenas com uma fiel companheira, Jamili. 
Aparecida: Não meu pai, não se vá! Me responda, me responda!
Aparecida chora sobre o corpo de seu pai. 

Cena 2 - Fazenda Coro Velho - Área dos Escravos - Madrugada
Aparecida fez uma reunião de última hora com todos os escravos da fazenda. Junto a ela, estava Jamili. 
Jamili: O que aconteceu mulher, pra tu fazer uma reunião surpresa a uma hora dessas? Eu estava dormindo!
Aparecida: Me desculpe por lhe acordar assim, mas foi preciso. 
Todos os escravos chegaram, é quando começa o discurso. Aparecida que está em cima de uma cadeira começa a falar. 

Aparecida: Hoje, dia 6 de Setembro de 1850, às dez e quarenta e cinco da noite, morreu um dos maiores donos que essa fazenda já teve, Jorge. Essa fazendinha aqui, já é velha também. Ela começou há quinhentos e quarenta e sete anos. Já passou por muita gente da minha família. E não é pela morte de meu pai que a fazenda vai acabar. Nós vamos arrumar um jeito de continuar isso. Eu prometo a vocês. 

Cena 3 - Mansão - Madrugada
Após dar a curta reunião, Aparecida entra para dentro da mansão. Lá, ela é perseguida por Jamili que segura no braço da amiga e a pergunta
Jamili: Como assim Aparecida?
Aparecida: Como assim o quê?
Jamili: Como vai continuar com esta fazenda? Você é uma mulher.
Aparecida: Mas eu não sou filha única. Vou tentar recorrer ao meu irmão.
Jamili: Depois de mais de trinta anos Aparecida.

Aparecida: É impossível ele recusar o pedido.

Cena 4 - Mata dos Atracauê - Casa da Augusta - Dia
Augusta está costurando vestimentas, quando de repente Gaxambu aparece correndo
Augusta: Que demora viu, Gaxambu? 
Gaxambu: Eu estava trabalhando. Sorte sua que eu pude sair do expediente e vir para cá. Tenho uma notícia ruim para você
Augusta: Tá bom, mas, qual a notícia?
Gaxambu: Seu avô, Jorge morreu.
Augusta: Mentira!
Gaxambu: Verdade!
O que os dois não sabem, é que um dos amigos de Aparecida perseguiu Gaxambu no caminho até a casa de Augusta. Ele se escondeu na mata e está observando tudo. 
Gaxambu: Acredite em mim!
Augusta: Mas isso não vem ao caso, trouxe minhas frutas?
Gaxambu: Trouxe
Augusta: Tudo bem, tome isso em agradecimento
Augusta dá um beijo na boca de Gaxambu. Surpreso, o homem saí dos arbustos e revela estar espionando. 
Manuel: Ora ora, tenho notícias para dar a Aparecida. Que lindo o casal.
Os dois se assustam e Augusta diz
Augusta: O que veio fazer aqui Manuel?
Manuel: Aparecida mandou eu perseguir Gaxambu. Acontece que, você esteve demorando muito para voltar nos últimos dias. 
Gaxambu: O tempo que eu fico aqui não é problema dela
Manuel: Errado! É aí que você mais erra.. Vou voltar pra lá com mãos cheias de notícia. Quero ver se o casal continua depois dessa.
Manuel chama seus comparsas que o acompanharam o caminho inteiro. Ele manda um deles ir avisar Aparecida. Enquanto dois ficam ajudando ele. 

Cena 5 - Vila Matias - Dia
Aparecida foi até a Vila Matias anunciar a notícia à Nicolau. Ela bate na porta da casa dele
Aparecida: Ô de casa - gritou mas ninguém respondeu. Ela gritou de novo
Aparecida: Ô de casa, tem alguém ai?
Imediatamente, a porta abriu. Ela entrou na casa escura. Com medo perguntou:
Aparecida: Cadê você, Nicolau?
Ninguém respondeu. Aparecida, com medo ameaça:
Aparecida: Acho que não tem ninguém aqui. Vou me embora
Quando uma voz misteriosa, aparece:
Nicolau: Ô minha irmã, não se vá. O que lhe trás aqui depois de trinta e dois anos?

Cena 6 - Vila Matias - Casa do Nicolau - Dia
Aparecida toma um susto e responde
Aparecida: Ah, você está aqui! Ligue essas luzes, preciso conversar urgentemente contigo.
Nicolau: Conversar comigo? Deve ser bem importante mesmo..
Aparecida: Sim, e é. Onde podemos conversar? 
Nicolau: Aqui mesmo, sente-se nas cadeiras. 
Os dois se sentam
Aparecida: Então, Nicolau, você é a única pessoa que nos resta. 
Nicolau: O que é agora? Vai me pedir algo? Achei que tinha me esquecido há 32 anos atrás.
Aparecida: Aquilo é passado meu irmão.
Nicolau: Passado? Diz isso por que não aconteceu com você. Fui abandonado pela minha própria família. Eu cresci aqui, e não naquela fazendinha medíocre.
Aparecida: Oxe homem, se arrete! Nosso pai Jorge veio a falecer ontem, infelizmente. E precisamos de um descendente homem para assumir a fazenda Coro Velho. E você é o único.
Nicolau: Eu posso amar aquela fazenda mais que tudo, minha infância toda foi lá. Mas, Aparecida, eu não posso. 
Aparecida: Por que não Nicolau? Seria uma ótima forma de você se retribuir com nosso pai, mesmo estando morto, ele estaria orgulhoso lá do céu
Nicolau pensa, coloca a mão na cabeça e diz
Nicolau: Tá bom Aparecida. Eu assumo o lugar de meu pai na fazenda. Mas como tudo na vida, tem um porém.
Aparecida: Que porém?

Cena 7 - Fazenda Coro Velho - Tarde
Após uma longa conversa com Nicolau, Aparecida volta de carro a vapor para a fazenda Coro Velho. Lá, é parada por Cristóvão. 
Cristóvão: Senhora, espere-me! falou ele, correndo atrás do automóvel em movimento. É quando Aparecida percebe,  manda parar
Aparecida: Parem! logo depois dessa fala, ela sai do carro.
Aparecida: O que foi homem?
Cristóvão: Tenho uma notícia ruim bem quentinha para dar a senhora.
Aparecida: Tudo bem, pode me dizer mais tarde?
Cristóvão: Não, é super importante - falou Cristóvão, aparentemente cansado depois de ter percorrido muito.
Aparecida: Nossa, que desespero!
Lá do carro, Nicolau diz
Nicolau: Vamos logo Aparecida, tô com pressa
Aparecida: Calma, tô esperando esse homem aqui desembuchar
Cristóvão: Sua filha, está realmente namorando o Gaxambu. Precisamos ir lá rápido.



NÃO PERCA O PRÓXIMO CAPÍTULO DE GIRA MUNDÃO!